quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Ratoeira da Bahia

O tempo passa e a realidade da vida obra sutis mudanças no texto da comédia diária da sociedade. No mais das vezes nem se nota, noutras vê-se o rabo nervoso de um rato ou outro. Tempos atrás, antes dos nossos amigos chegarem ao poder, por exemplo, quando um de nós se recuperava de um susto ou de um tropeço ou mesmo de uma queda livre em precipício, costumava-se escrever “recebeu alta e já está em casa”. Hoje, lê-se “foi solto e já está em casa”, pronto, nada de mais, vida que segue. A diferença está na história de cada um, no boletim de ocorrência. O resto é só a farsa cotidiana.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Prometeis



Tira de Laerte, na Ilustrada de hoje.

Prometo que gosto mais de banana que de manga.

sábado, 21 de novembro de 2009

Louvado seja José

Acabei de ler Caim.
É desconcertante.
Quando se lê Saramago o melhor a fazer é esquecer tudo que se imagina que sabe do tema, sejam poetas portugueses, jangadas, moinhos, lucidez, cegueira, morte, seja o que for, ele sabe mais.
Luis Fernando Veríssimo publicou horas atrás, em O Globo, um artigo inteligível sobre Caim, não o livro, sim o personagem. Luis Fernando é bom. Tecnicamente, é dos melhores. Parece que ele odiou o livro, o qual começa por dizer que ainda não leu, e as digressões de Saramago sobre o imaginário popular católico apostólico romano, ou seja, sobre a memória coletiva desta banda da terra. Luis Fernando não conclui o artigo, apenas se debate numa piscina de almanaques e tratados teológicos modelo Edições Paulinas, e alguma improvável versão do antigo testamento descoberta em exploração turística cultural em mercados de Paris ou Istambul, e nos deixa perplexos com uma coluna de sutis insinuações supostamente tão eruditas quanto inúteis.
Verdades e mentiras históricas, em ficção, sinceramente, são a mesma coisa e interessam menos que os impulsos conscientes e inconscientes do debochado narrador. Ler também é tentar entender por que o escritor escreveu aquela história. Nisso, claro, Saramago acerta em cheio. Caim, seja quem for que tenha sido, jamais será o mesmo. A fantasia celestial católica bordada a ouro e pedras preciosas confiscadas de civilizações hereges não é eterna e começa a esvanecer. O velho grande escritor português acaba de deitar-lhe a primeira marretada. O tempo, afinal, começa a corroer o modelo criacionista criado para cabresto da humanidade. Não demora muito, talvez os netos dos nossos netos, e o homem enfim poderá ver-se livre dos princípios cruéis e punitivos da fé cristã.
Mas do que tanto fala o velho português encantado pelo domínio absoluto da narrativa literária? De sexo, ora pois. Justo de sexo, o único tema o qual driblou a perfeição em mais de 10 romances, principalmente em O Ano da Morte de Ricardo Reis, quando o inevitável encontro sexual entre o poeta inventado e uma mulher de carne e osso é reduzido à frase final de um parágrafo de fim de capítulo, como se o leitor só tivesse direito a ouvir apenas um gemido.
Por que Saramago está escrevendo sobre sexo? Acho que sei, mas não posso me meter nisso. O velho poderia me amaldiçoar até o fim dos tempos, embora o outro velho, caso haja, claro, daria boas risadas e talvez até me salvasse da praga do desafeto. Na dúvida, fico por aqui.
O sexo soando como um fagote no contraponto sinfônico da literatura talvez seja uma armadilha de deus que nem um dos mais sábios dos homens do nosso tempo soube lograr perceber.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O circo

Esta é impressionante.
A cantora Madona, reunida em jantar com celebridades e empresários brasileiros, arrecadou mais de sete milhões de dólares em doação para sua ONG SFK.
A Rede Globo, em campanha nacional com maciças inserções comerciais na programação diária durante mais de dois meses, conseguiu arrecadar este ano algo próximo de cinco milhões de dólares para o Criança Esperança.
A cantora ainda teve que sorrir constrangida com pedidos embasbacados para que passe o réveillon em Copacabana e faça o show de abertura das Olimpíadas 2016.
Este é o País. Estas são as celebridades.

Na terra da lorota

A mentira e a desfaçatez são instrumentos legítimos para ataque e defesa política segundo a lógica dos petistas. A história da luta democrática política no país talvez explique, mas nada justifica. Ministros, governadores, prefeitos, deputados, senadores e até o presidente da República falseia a verdade de acordo com seu interesse político imediato. O jornalista Boris Casoy costuma dizer, em casos absurdos semelhantes, que isto é uma vergonha. Eu acho que é um crime. E fico envergonhado. Dá vontade de guardar os livros, recolher lápis e borracha e sair da sala. Os professores enlouqueceram.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O país da Madalena

O apagão esclareceu uma situação encoberta até agora pelas luzes festivas da mídia de comunicação e a falta de liderança política no País:
- O Brasil não tem governo administrativo. Tem apenas um grupo político capaz de qualquer artimanha ou artifício para se manter no poder.
Primeiro, o presidente da República. Nada disse de relevante, apenas tentou se justificar e desviar o foco do problema, igual ao que sempre faz quando enfrenta um problema real.
Segundo, o ministro das Minas e energia, o senhor Edison Lobão. Nada mais deslocado da cena técnico administrativa de um Ministério. É homem de negociatas políticas, talvez não saiba nem trocar uma lâmpada queimada. Presta serviços íntimos a José Sarney, não pode ser levado a sério.
Terceiro, a ministra da Casa Civil, candidata preferencial do presidente a Presidência da República, Dilma Roussef. Ninguém sabe ninguém viu, a ex-ministra das Minas e Energia simplesmente sumiu.
E, por último, o Ministro da Justiça Tarso Genro. O ex-governador gaúcho foi de uma infelicidade ímpar ao tentar minimizar e politizar o problema. Impressionante a desfaçatez e a cara de pau.
Cadê o Governo?
Esta por aí roubando uma licitação qualquer ou fazendo um filmezinho emocionante sobre o nada ou enfeitando um palanque engana-trouxa para a grande festa cívica do próximo ano.
O que o senhor poe fazer?
Como diria o ex-ministro Gilberto Gil, vá na próxima capela e acenda uma vela.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

A luta do século

O único cara capaz de derrotar Lula é Fernando Henrique Cardoso.
O PT acredita que a chave da vitória na próxima eleição está no confronto dos governos Lula e FHC. O poder da propaganda inspira e fortalece a estratégia governista. O que os petistas de todas as estirpes não percebem é que o confronto pessoal entre o mesmo Lula e Fernando Henrique Cardoso indica outros resultados.
Lula fica ruborizado quando enfrenta Fernando Henrique e nem a tentativa de diminuir o inimigo a uma sigla de baixa popularidade disfarça a insegurança do discurso do presidente.
Lula é tão mau aluno quanto Fernando é mau professor, todo mundo sabe disso. A questão é que a serenidade lógica do mestre do conhecimento acadêmico, além de incompreensível para o interlocutor, desequilibra as emoções do aprendiz de feiticeiro de causas populares.
O povo e a democracia ganhariam muito com uma disputa direta entre os dois maiores nomes da política nacional nas últimas décadas.
Dilma e Serra poderiam fazer uma espécie de preliminar. Para continuarem a ser isso que já são.