terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

De Imprensa e imprensados

Atrás de um simples clique em uma chamadinha despretensiosa, na capa do portal Terra, sob o título Jornalista Italiano Caçoa de Poema de Tarso Genro, se esconde um profundo equívoco jornalístico e um insulto à inteligência dos leitores, ou dos tais internautas, como preferem alguns.
A matéria é um post do blog Sem Fronteiras, do jurista e professor Walter Mariecovitch, sobre um artigo no jornal Corriere della Sera, assinado pelo correspondente no Brasil, jornalista Rocco Crotoneo. O jornalista italiano tenta, sem o menor prurido ético ou moral, desqualificar o Ministro da Justiça do Brasil por uma poesia publicada em 1977, quando Tarso Genro era um jovem advogado recém-formado. O artigo, a pretexto de defender a extradição de Cesare Battisti, mostra apenas despreparo técnico, autoritarismo, preconceito, ignorância e razoáveis doses de estupidez e covardia editorial. A poesia em questão é apenas uma peça literária ruim, transformá-la em exemplo de caráter do autor é uma pusilanimidade, ou uma sacanagem, termo mais apropriado ao caso.
O pior, entretanto, para o desavisado e distraído navegante do portal mais infantil da mídia de comunicação nacional, está na promoção e no apoio do professor Mariecovitch aos disparates políticos, filosóficos e literários do italiano mal-educado. Sabia-se, até hoje, que o renomado acadêmico paulista é crítico ativo, digamos assim, do Governo Lula, do PT e da chamada esquerda-caviar, mas ninguém sequer desconfiava, entretanto, que o referido elevado senhor não tem a menor noção de onde acaba a liberdade de Imprensa e começa a irresponsabilidade jornalística.
Eu também não simpatizo com o estilo de Tarso Genro, principalmente de suas argumentações políticas subjetivas e superficiais, mas chute no meio das pernas é fora da regra.
O ministro devia expulsar este palhaço italiano do Brasil. Do blogueiro oportunista nos livraremos nós, os internautas vingadores.

A política como ela é

Foto da página política de hoje da Folha de S. Paulo, por Lula Marques.
Senadores e ex-presidentes José Sarney e Collor de Melo se cumprimentam no plenário do Senado, entre eles o risinho matreiro de outro senador recém reconduzido ao poder, Renan Calheiros.

Seria o retrato da renovação do processo político democrático nacional? Seria.
Seria a garantia de que o presidente Lula não terá oposição daqui para a frente? Seria.
Seria a certeza de que o taxidermista de Brasília é um dos melhores do mundo? Seria.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Negócio da China

Imagino que o pessoal da cozinha dos portais tem que trabalhar sem parar em busca de notícias interessantes, respeito, claro, mas às vezes dá nos nervos, como se dizia antigamente. Afinal, de onde saem e quem são estas personalidades que enfeitam a metade inferior das capas do dia? Talvez Andy Wharol tenha se enganado. Parece que o futuro já passou e as pessoas são famosas por 15 segundos.
Mas há duas sub-notícias interessantes no Uol neste momento: Pasquale Neto, professor de Português e colunista da Folha, afirma que vai usar a velha ortografia até 2012. Muito bom. E uma matéria sobre Vida Executiva para quem pretende vender as férias. Sensacional.
Não sei se entendi direito, mas gostaria de participar da promoção. Quero vender as minhas férias. Tinha programado ir visitar o terreno de um amigo meu no Mundo da Lua. Ele está para construir uma casinha por lá, mas não sabe de que lado é o nascente. Eu ajudaria a descobrir, sou perito em impossibilidades materiais. A questão é o custo da viagem, orçado em 28 milhões de dólares por uma empresa indiana com um consórcio sino-coreano, tudo cientista do mais fino trato. Vendo tudo agora por duque e galo –ou 250 paus, como se dizia ontem e se diz hoje. Imperdível, para você que está prestes a virar celebridade.

Faz favor de mexer

Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar. E dia de fanfarra em Brasília. As eleições do presidente da Câmara e do presidente do Senado mexem com as cadeiras da classe política, do empresariado e da Imprensa nacional. Como um samba para Yemanjá. Os portais sacolejam de hora em hora e os blogs rebolam como cabrochas desaforadas. O que se sabe é que ninguém sabe de nada e todo mundo acha que sabe de tudo.
Do alto desta varanda-promontório, sem ter a ver nem com uma coisa nem com outra, ouso anunciar um único vencedor neste grande embate democrático a portas fechadas, o sindicalista Luis Ignácio Lula da Silva.
Um presidente da República, seja quem for, não consegue governar sentado em cima de um único partido e de alguns anexos de aluguel. Lula, hoje, está se acomodando em cima, ou botando o pé no pescoço, do maior partido nacional. O que virá em seguida, isto sim, será de fazer Yemanjá requebrar no fundo mar.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Capa e espada

Gostaria de falar um pouco de literatura, mas nada tenho a dizer. Não tenho lido. Passo o tempo em busca de informações sobre a crise política, os vários viéis, os tantos portantos. A lucidez e a razão, em política, não tem exatamente o mesmo sentido. Amanhã será um dia decisivo, pode acontecer de tudo, até mesmo a imagem do vencedor projetada na tela não ser a original que está dentro do projetor. O quadro é tão claro e ao mesmo tempo tão difuso que nem a mais desatada das imaginações, como a do senhor José Arcádio Buendía, por exemplo, conseguiria decifrá-lo. Só teremos um novo e definitivo retrato na parede depois da abertura das urnas e da contagem dos votos. Enquanto isso, esboço em uma tela particular uma Monalisa bigoduda com cara de pirata, e um pirata empalhado com cara de Monalisa.

Modestas esmolas do dia

Mais uma contribuição às reflexões dominicais político-culturais, esta apenas em homenagem à luminosidade da manhã, nada de dramas ideológicos, trata-se somente da vida. E por um dos poucos grandes escritores da literatura de todos os tempos, Jorge Luis Borges.


Alguien

Un hombre trabajado por el tiempo,
un hombre que ni siquiera espera la muerte
(las pruebas de la muerte son estadísticas
y nadie hay que no corra el albur
de ser el primer inmortal),
un hombre que ha aprendido a agradecer
las modestas limosnas de los días:
el sueño, la rutina, el sabor del agua,
una no sospechada etimología,
un verso latino o sajón,
la memoria de una mujer que lo ha abandonado
hace ya tantos años
que hoy puede recordarla sin amargura,
un hombre que no ignora que el presente
ya es el porvenir y el olvido,
un hombre que ha sido desleal
y con el que fueron desleales,
puede sentir de pronto, al cruzar la calle,
una misteriosa felicidad
que no viene del lado de la esperanza
sino de una antigua inocencia,
de su propia raíz o de un dios disperso.
Sabe que no debe mirarla de cerca,
porque hay razones más terribles que tigres
que le demostrarán su obligación
de ser un desdichado,
pero humildemente recibe
esa felicidad, esa ráfaga.
Quizá en la muerte para siempre seremos,
cuando el polvo sea polvo,
esa indescifrable raíz,
de la cual para siempre crecerá,
ecuánime o atroz,
nuestro solitario cielo o infierno.

O lugar exato do buraco

Em homenagem à radiante manhã dominical no país da esperança e do otimismo e à instigante e intrigante discussão sobre o que era crime comum e crime político nos terríveis anos de chumbo, os anos 70, publico um textinho de fundo de gaveta, um breve relato, para confundir ainda mais o mínimo entendimento da lógica.

Os padres
abriram fogo antes que alguém pudesse fazer qualquer movimento. A maioria dos homens se cobria com panos vermelhos e as mulheres usavam vestes negras, não havia crianças nem velhos, todos eram verdadeiros combatentes. Os jovens que naquele tempo amavam Beatles e Rolling Stones estavam ao largo, encostados nos muros, roendo unhas, mascando chicletes, fumando cigarros sem filtro, alguns com panos pretos amarrados à testa imitando apaches de bang-bang americano, desocupados da periferia. Nada de desempregados, apenas desocupados. Ninguém queria emprego, todos queriam apenas ocupação, algo rápido, algum trocado e tchau, voltariam ao muro, ao chiclete, às unhas. Os padres podiam atirar à vontade. Só os homens e mulheres estavam ali para serem abatidos, cordeiros de deus, os jovens sabiam que seus pais tinham lugares assegurados no céu, sentados em nuvens ao lado de anjos de confiança do Senhor, somente esperavam a hora da munição acabar, a hora dos santos fuzis se calarem, então invadiriam os templos, quebrariam a ordem espiritual, decretariam um tempo sem deus ou lei, um tempo sem vítimas nem algozes. Os padres, eles, nem reparavam direito nas feições do público alvo, apenas continuavam atirando. O céu necessita de almas como os criminosos de vítimas.