Passo a publicar a partir de hoje, e não sei bem o porquê, talvez seja uma espécie de homenagem às recentes eleições na Câmara e no Senado, um folhetim que escrevi, tempos atrás, inspirado na figura política do senador Antonio Carlos Magalhães. Antonio Carlos é, sem dúvida, a maior personagem da história política da Bahia e sua notória influência sobre as instituições do Estado e até mesmo a produção cultural e a exploração dos recursos naturais e outras potencialidades econômicas está se diluindo na dinâmica do processo político democrático, não demora e as novas gerações não saberão direito quem foi aquele a quem alguns chamavam de O Chefe, uns tantos de Cabeça Branca, outros de Toninho Malvadeza e todos de ACM.
Este folhetim, sem compromissos com veracidade dos fatos pois floresce num jardim de fraudes e mentiras, constrói, hora a hora, um hipotético tempo de dois dias e uma noite para contar o que poderia ter acontecido às vésperas da grande crise política nacional que tirou dos palácios oficiais e devolveu por alguns instantes ao canteiro do fundo do quintal um dos últimos líderes que tanto enlevam o espírito daqueles que ainda sobrevivem dos escombros ideológicos do autoritarismo.
Nenhum dos fatos aqui relacionados podem ser atribuídos a ACM, pois foram recolhidos como folclore político regional, não são reproduções de acusações legais ou mesmo de ordem política, são apenas constatações jornalísticas utilizadas para formular um folhetim literário, algo que possa ajudar ao grande público a entender como funcionam, na prática, os métodos do coronelismo como sistema político. As semelhanças, portanto, não são meras coincidências, são reflexos reais de uma imagem pública.
Eis, pois, A Flor da Maldade.
Capítulo um
O dia começou com as árvores passando devagar na janela do carro, o sol se desvencilhando da terra, o coronel olhando pro mundo e pensando em poder. A estrada se insinuava Mata Atlântica adentro, os raios de sol cravando luz no verde novo, o coronel reparou numa bicicleta serpenteando as árvores, os aros de metal das rodas refletindo pequenos flashs que pareciam vaga-lumes gigantes, um bom jeito de acordar para um dia decisivo, um dia de ouvir sim ou não. O senhor que sempre acompanhava o coronel também reparou nos efeitos de luz da bicicleta na mataria e comentou displicente “se eu tivesse um fuzil aqui, agora, mandava aquela porra pro caralho”. O coronel sorriu seu risinho de serpente e concordou:
- Exatamente, exatamente.
O carro ainda deslizou como uma nave estelar na tênue camada de lama asfáltica que havia custado toneladas de ouro aos cofres públicos até que parou no campo de pouso onde o pássaro de ferro prateado com a bandeirinha do Governo do Estado pintada no rabo da fuselagem passara a noite à espera do fim da tempestade. O coronel desceu com sua alegre opulência arrogante e atravessou o saguão sem olhar para os lados, olhos fixos no Learjat, apenas o rapaz do pequeno campo de pouso se aproximou sorrindo, cheio de explicações e amabilidades:
-O céu está limpo, chefe. Uma maravilha. O sol nunca mais vai se por...
O rapaz queria ser espirituoso, inteligente, o coronel seguiu direto para o jato, não disse uma palavra, subiu, cumprimentou piloto e co-piloto, se acomodou na poltrona e só então perguntou ao senhor que sempre o acompanhava:
-Por que ainda não demitiram esse bosta?
O jato rompeu a neblina do amanhecer e ganhou o céu rugindo como uma fera sideral. A pequena cidade da mata tropical, a pérola do cacau, ficou amarelando ao sol, igual a sempre, com suas casas mortas, com seu povo morto, com os mesmos chinelos, as camisas brancas esmaecidas, os olhos remelados de miséria, olhando a bola de fogo sumir no céu, a visita da esperança havia acabado e o mundo continuava gotejando nada.
O Learjat foi direto para as nuvens negras da tempestade que ainda se arrastava pelo ar desde a noite anterior. O piloto foi obrigado a voar baixo, a uns dois quilômetros da orla do mar, o jato tropeçando nos vazios de ar entre um morro e outro, igual a uma esburacada estrada no céu. O coronel se enjoou em segundos. O senhor que sempre o acompanhava também. Os pilotos se fingiram de macho e atravessaram a turbulência com um sorriso nos lábios. “O telefone funciona, isso é o que importa”, disse o coronel ao velho companheiro. Hora de exercitar poder. Em poucos instantes navegando os maus humores do céu, soube que a dissidência em sua base era inevitável. Mas tanto faz, sempre soube. Descobriu também que iria perder cargos e negociou pelo menos o silêncio da Imprensa. Se ninguém falar, ninguém fica sabendo. Chamou o presidente da República de inútil para um assessor direto, o que significa recado direto. Ameaçou outro pobre interlocutor não identificado com as mais sórdidas mesquinharias, as mais podres verdades. Mexeu com a alma de milhares de pessoas como se elas não tivessem vida, segregou cidades, liberou ordens de serviço para obras milionárias na imensidão do nada, o nada registrado em cartório.
O jato estabilizou outra vez sobre as ondas do mar, como se tivesse, afinal, alcançado uma rodovia asfaltada. Ele encerrou a sessão de telefonemas relâmpagos com uma ordem ríspida para que localizassem duas pessoas cujos nomes ninguém conseguiu ouvir. Desligou o aparelho e comentou com o companheiro de sempre, como se repetisse uma pérola original de prato de porcelana:
- O melhor é saber de tudo sem saber de nada.
Mais uns poucos minutos e estariam no grande aeroporto internacional da capital do Estado, onde um barulhento grupo de correligionários havia preparado uma manifestação popular espontânea de apoio à candidatura do maior homem do mundo ao Governo do Estado. As mesmas faixas de sempre, com tal lugar está com o coronel, tal coisa se deve ao coronel, todos saúdam o coronel, mas o coronel foi seco e direto:
- Não quero conversa com esses cornos.
O senhor que sempre o acompanhava sabia o que tinha a fazer, veterano especialista em manifestações espontâneas, organizadas ou não. O coronel acabou descendo do avião carregado pelos puxa-sacos, sem botar os pés no chão, como ele mais gostava, abanando para os cornos, sorrindo e espichando o olhar para os outros aviões comerciais, para as janelinhas, para os hangares, para os trabalhadores de apoio, para saber se aquele desembarque espalhafatoso num lugar quase vazio poderia impressionar alguém, influenciar em pelo menos dez ou vinte votinhos, quem sabe. Os puxa-sacos o depositaram no carro oficial, o senhor que sempre o acompanhava deu ordens ao pé de ouvido, bem como o bando adorava assistir, depois também entrou no carro e mandou o motorista arrancar a toda velocidade. Além da agenda mixuruca do dia nada tinham de objetivo para fazer, a não se tomar o café da manhã num lugar que entendiam como civilizado, a cozinha do palácio do Governo do Estado, mas a saída rápida do aeroporto, sem passar pelo saguão dos mortais, fazia parte do espetáculo, não há gesto gratuito em política profissional.
(Amanhã, capítulo dois)
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
De Imprensa e imprensados
Atrás de um simples clique em uma chamadinha despretensiosa, na capa do portal Terra, sob o título Jornalista Italiano Caçoa de Poema de Tarso Genro, se esconde um profundo equívoco jornalístico e um insulto à inteligência dos leitores, ou dos tais internautas, como preferem alguns.
A matéria é um post do blog Sem Fronteiras, do jurista e professor Walter Mariecovitch, sobre um artigo no jornal Corriere della Sera, assinado pelo correspondente no Brasil, jornalista Rocco Crotoneo. O jornalista italiano tenta, sem o menor prurido ético ou moral, desqualificar o Ministro da Justiça do Brasil por uma poesia publicada em 1977, quando Tarso Genro era um jovem advogado recém-formado. O artigo, a pretexto de defender a extradição de Cesare Battisti, mostra apenas despreparo técnico, autoritarismo, preconceito, ignorância e razoáveis doses de estupidez e covardia editorial. A poesia em questão é apenas uma peça literária ruim, transformá-la em exemplo de caráter do autor é uma pusilanimidade, ou uma sacanagem, termo mais apropriado ao caso.
O pior, entretanto, para o desavisado e distraído navegante do portal mais infantil da mídia de comunicação nacional, está na promoção e no apoio do professor Mariecovitch aos disparates políticos, filosóficos e literários do italiano mal-educado. Sabia-se, até hoje, que o renomado acadêmico paulista é crítico ativo, digamos assim, do Governo Lula, do PT e da chamada esquerda-caviar, mas ninguém sequer desconfiava, entretanto, que o referido elevado senhor não tem a menor noção de onde acaba a liberdade de Imprensa e começa a irresponsabilidade jornalística.
Eu também não simpatizo com o estilo de Tarso Genro, principalmente de suas argumentações políticas subjetivas e superficiais, mas chute no meio das pernas é fora da regra.
O ministro devia expulsar este palhaço italiano do Brasil. Do blogueiro oportunista nos livraremos nós, os internautas vingadores.
A matéria é um post do blog Sem Fronteiras, do jurista e professor Walter Mariecovitch, sobre um artigo no jornal Corriere della Sera, assinado pelo correspondente no Brasil, jornalista Rocco Crotoneo. O jornalista italiano tenta, sem o menor prurido ético ou moral, desqualificar o Ministro da Justiça do Brasil por uma poesia publicada em 1977, quando Tarso Genro era um jovem advogado recém-formado. O artigo, a pretexto de defender a extradição de Cesare Battisti, mostra apenas despreparo técnico, autoritarismo, preconceito, ignorância e razoáveis doses de estupidez e covardia editorial. A poesia em questão é apenas uma peça literária ruim, transformá-la em exemplo de caráter do autor é uma pusilanimidade, ou uma sacanagem, termo mais apropriado ao caso.
O pior, entretanto, para o desavisado e distraído navegante do portal mais infantil da mídia de comunicação nacional, está na promoção e no apoio do professor Mariecovitch aos disparates políticos, filosóficos e literários do italiano mal-educado. Sabia-se, até hoje, que o renomado acadêmico paulista é crítico ativo, digamos assim, do Governo Lula, do PT e da chamada esquerda-caviar, mas ninguém sequer desconfiava, entretanto, que o referido elevado senhor não tem a menor noção de onde acaba a liberdade de Imprensa e começa a irresponsabilidade jornalística.
Eu também não simpatizo com o estilo de Tarso Genro, principalmente de suas argumentações políticas subjetivas e superficiais, mas chute no meio das pernas é fora da regra.
O ministro devia expulsar este palhaço italiano do Brasil. Do blogueiro oportunista nos livraremos nós, os internautas vingadores.
A política como ela é
Foto da página política de hoje da Folha de S. Paulo, por Lula Marques.Senadores e ex-presidentes José Sarney e Collor de Melo se cumprimentam no plenário do Senado, entre eles o risinho matreiro de outro senador recém reconduzido ao poder, Renan Calheiros.
Seria o retrato da renovação do processo político democrático nacional? Seria.
Seria a garantia de que o presidente Lula não terá oposição daqui para a frente? Seria.
Seria a certeza de que o taxidermista de Brasília é um dos melhores do mundo? Seria.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Negócio da China
Imagino que o pessoal da cozinha dos portais tem que trabalhar sem parar em busca de notícias interessantes, respeito, claro, mas às vezes dá nos nervos, como se dizia antigamente. Afinal, de onde saem e quem são estas personalidades que enfeitam a metade inferior das capas do dia? Talvez Andy Wharol tenha se enganado. Parece que o futuro já passou e as pessoas são famosas por 15 segundos.
Mas há duas sub-notícias interessantes no Uol neste momento: Pasquale Neto, professor de Português e colunista da Folha, afirma que vai usar a velha ortografia até 2012. Muito bom. E uma matéria sobre Vida Executiva para quem pretende vender as férias. Sensacional.
Não sei se entendi direito, mas gostaria de participar da promoção. Quero vender as minhas férias. Tinha programado ir visitar o terreno de um amigo meu no Mundo da Lua. Ele está para construir uma casinha por lá, mas não sabe de que lado é o nascente. Eu ajudaria a descobrir, sou perito em impossibilidades materiais. A questão é o custo da viagem, orçado em 28 milhões de dólares por uma empresa indiana com um consórcio sino-coreano, tudo cientista do mais fino trato. Vendo tudo agora por duque e galo –ou 250 paus, como se dizia ontem e se diz hoje. Imperdível, para você que está prestes a virar celebridade.
Mas há duas sub-notícias interessantes no Uol neste momento: Pasquale Neto, professor de Português e colunista da Folha, afirma que vai usar a velha ortografia até 2012. Muito bom. E uma matéria sobre Vida Executiva para quem pretende vender as férias. Sensacional.
Não sei se entendi direito, mas gostaria de participar da promoção. Quero vender as minhas férias. Tinha programado ir visitar o terreno de um amigo meu no Mundo da Lua. Ele está para construir uma casinha por lá, mas não sabe de que lado é o nascente. Eu ajudaria a descobrir, sou perito em impossibilidades materiais. A questão é o custo da viagem, orçado em 28 milhões de dólares por uma empresa indiana com um consórcio sino-coreano, tudo cientista do mais fino trato. Vendo tudo agora por duque e galo –ou 250 paus, como se dizia ontem e se diz hoje. Imperdível, para você que está prestes a virar celebridade.
Faz favor de mexer
Dia dois de fevereiro, dia de festa no mar. E dia de fanfarra em Brasília. As eleições do presidente da Câmara e do presidente do Senado mexem com as cadeiras da classe política, do empresariado e da Imprensa nacional. Como um samba para Yemanjá. Os portais sacolejam de hora em hora e os blogs rebolam como cabrochas desaforadas. O que se sabe é que ninguém sabe de nada e todo mundo acha que sabe de tudo.
Do alto desta varanda-promontório, sem ter a ver nem com uma coisa nem com outra, ouso anunciar um único vencedor neste grande embate democrático a portas fechadas, o sindicalista Luis Ignácio Lula da Silva.
Um presidente da República, seja quem for, não consegue governar sentado em cima de um único partido e de alguns anexos de aluguel. Lula, hoje, está se acomodando em cima, ou botando o pé no pescoço, do maior partido nacional. O que virá em seguida, isto sim, será de fazer Yemanjá requebrar no fundo mar.
Do alto desta varanda-promontório, sem ter a ver nem com uma coisa nem com outra, ouso anunciar um único vencedor neste grande embate democrático a portas fechadas, o sindicalista Luis Ignácio Lula da Silva.
Um presidente da República, seja quem for, não consegue governar sentado em cima de um único partido e de alguns anexos de aluguel. Lula, hoje, está se acomodando em cima, ou botando o pé no pescoço, do maior partido nacional. O que virá em seguida, isto sim, será de fazer Yemanjá requebrar no fundo mar.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Capa e espada
Gostaria de falar um pouco de literatura, mas nada tenho a dizer. Não tenho lido. Passo o tempo em busca de informações sobre a crise política, os vários viéis, os tantos portantos. A lucidez e a razão, em política, não tem exatamente o mesmo sentido. Amanhã será um dia decisivo, pode acontecer de tudo, até mesmo a imagem do vencedor projetada na tela não ser a original que está dentro do projetor. O quadro é tão claro e ao mesmo tempo tão difuso que nem a mais desatada das imaginações, como a do senhor José Arcádio Buendía, por exemplo, conseguiria decifrá-lo. Só teremos um novo e definitivo retrato na parede depois da abertura das urnas e da contagem dos votos. Enquanto isso, esboço em uma tela particular uma Monalisa bigoduda com cara de pirata, e um pirata empalhado com cara de Monalisa.
Modestas esmolas do dia
Mais uma contribuição às reflexões dominicais político-culturais, esta apenas em homenagem à luminosidade da manhã, nada de dramas ideológicos, trata-se somente da vida. E por um dos poucos grandes escritores da literatura de todos os tempos, Jorge Luis Borges.
Alguien
Un hombre trabajado por el tiempo,
un hombre que ni siquiera espera la muerte
(las pruebas de la muerte son estadísticas
y nadie hay que no corra el albur
de ser el primer inmortal),
un hombre que ha aprendido a agradecer
las modestas limosnas de los días:
el sueño, la rutina, el sabor del agua,
una no sospechada etimología,
un verso latino o sajón,
la memoria de una mujer que lo ha abandonado
hace ya tantos años
que hoy puede recordarla sin amargura,
un hombre que no ignora que el presente
ya es el porvenir y el olvido,
un hombre que ha sido desleal
y con el que fueron desleales,
puede sentir de pronto, al cruzar la calle,
una misteriosa felicidad
que no viene del lado de la esperanza
sino de una antigua inocencia,
de su propia raíz o de un dios disperso.
Sabe que no debe mirarla de cerca,
porque hay razones más terribles que tigres
que le demostrarán su obligación
de ser un desdichado,
pero humildemente recibe
esa felicidad, esa ráfaga.
Quizá en la muerte para siempre seremos,
cuando el polvo sea polvo,
esa indescifrable raíz,
de la cual para siempre crecerá,
ecuánime o atroz,
nuestro solitario cielo o infierno.
Alguien
Un hombre trabajado por el tiempo,
un hombre que ni siquiera espera la muerte
(las pruebas de la muerte son estadísticas
y nadie hay que no corra el albur
de ser el primer inmortal),
un hombre que ha aprendido a agradecer
las modestas limosnas de los días:
el sueño, la rutina, el sabor del agua,
una no sospechada etimología,
un verso latino o sajón,
la memoria de una mujer que lo ha abandonado
hace ya tantos años
que hoy puede recordarla sin amargura,
un hombre que no ignora que el presente
ya es el porvenir y el olvido,
un hombre que ha sido desleal
y con el que fueron desleales,
puede sentir de pronto, al cruzar la calle,
una misteriosa felicidad
que no viene del lado de la esperanza
sino de una antigua inocencia,
de su propia raíz o de un dios disperso.
Sabe que no debe mirarla de cerca,
porque hay razones más terribles que tigres
que le demostrarán su obligación
de ser un desdichado,
pero humildemente recibe
esa felicidad, esa ráfaga.
Quizá en la muerte para siempre seremos,
cuando el polvo sea polvo,
esa indescifrable raíz,
de la cual para siempre crecerá,
ecuánime o atroz,
nuestro solitario cielo o infierno.
Assinar:
Postagens (Atom)