sexta-feira, 26 de junho de 2009

Morte ao vivo

Logo depois de postar a nota abaixo saí para buscar veneno no armazém da esquina. No caminho, triste Bahia, quão dessemelhante, passei por dois meninos e tive a graça de escutar a conversa. O maior, uns sete, oito anos, perguntou pro menor:
- Você sabe por que o Maiqueujéquius morreu?
- Não.
- Porque ele trocou de pele.
Comprei o cigarro e voltei pra casa matutando. Desde ontem à noite vejo os noticiários titubearem sobre a morte do grande astro. O Jornal Nacional, por exemplo, demorou cinco minutos para dizer que o cara estava morto, algo mais ou menos parecido com a absurda cobertura ao vivo do acidente da TAM, em Congonhas, quando o repórter EVITOU dizer que tinha 200 pessoas a bordo do avião em chamas que a televisão estava mostrando. Mas bastou sair à rua para ouvir uma opinião crítica sincera e original. E logo de um guri vagabundeando na manhã ainda outonal da periferia baiana. Um sacana que nem tem diploma de jornalista...

Los antojos

O vento triste da morte anda a recolher almas e, por isso, só por isso, desatou nesta manhã baiana de sol frio o nó que sufoca o pescoço deste blog.
Primeiro, Farrah Fawcet, retrato oficial da beleza em folhinha de oficina mecânica. Algumas horas depois, Michael Jackson, este sim o sol halográfico que iluminava ribaltas mundo afora, aqui, no Pelourinho, na Rocinha, no Cazaquistão e nas luas de Saturno. E um pouco antes, sem ninguém notar, levou outro Antonio Santos, o Toninho Vanuza, ex-meio-campo do Palmeiras.
Acho que os três tinham uma coisa em comum: eram jovens. Ainda estavam longe de fechar o boteco, mas hoje em dia, graças ao avanço das drogas medicinais, a gente pode morrer a qualquer hora, sem mais nem por quê.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

O convertido

Nesta semana que passou o presidente Lula talvez tenha dito a maior quantidade de bobagens homéricas de todas as pronunciadas ao longo de sete anos de mandato. Ele é popular, legítimo, demagogo, pode tudo, mas isso desde que não tente mudar a realidade dos fatos e nem prever conseqüências históricas que só interessam a ele e aos seus súditos.
Ao se referir a guerrilha do Araguaia, um dos episódios ainda não totalmente esclarecido durante a RESISTÊNCIA ao regime militar, disse em tom professoral que o Brasil precisa é de heróis, e não de ficar tentando identificar e julgar seus algozes.
Ninguém precisa de heróis. Nenhuma Nação precisa de heróis. Só gente e mundo de fantasia é que precisam de heróis.
O Brasil precisa, isto sim, o mais rápido possível, é esclarecer em que circunstâncias dezenas de militantes políticos brasileiros foram assassinados nas matas do cerrado.
Lula, a cada dia que passa, se afasta ainda mais dos compromissos políticos ideológicos que o levaram à presidência da República.
O roteiro de seu mundo perfeito, onde a oposição é o mal e ele, só ele, é o bem, deve estar sendo escrito por alguém dos estúdios das antigas chanchadas da Atlântida. E alguém muito competente. Se não fosse assim, como aqueles jovens de ontem (nós mesmos!) poderiam continuar acreditando num líder de esquerda que é o preferido do presidente dos Estados Unidos?

Odes ao vazio

Tira de Laerte, Ilustrada de hoje.





Tira de Angeli, Ilustrada de hoje.







sábado, 20 de junho de 2009

Psicopatia

Brasileiros e brasileiras, ando meio brigado com o blog, mas a manchete de hoje de O Estado de S. Paulo me traz de volta ao teclado:
Senado paga mordomo de Roseane Sarney.
O mordomo responde pelo apelido de Secreta, ganha 12 paus por mês como assessor do senador José Sarney, mas trabalha na casa da governadora Roseana Sarney.
O senador, presidente do Senado Federal, continua aplicando o golpe do eu não vi, eu não sabia, eu vou mandar investigar.
O presidente Lula tem razão, Sarney não é uma pessoa comum, não pode ser tratado como uma pessoa comum.

sábado, 13 de junho de 2009

Dois milhões de Zie e Zii

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, deu um tiro calibre 12 no pé esquerdo.
O senhor Juca, guindado ao mais alto escalão político da República pelas mãos conterrâneas coorporativas de Gilberto Gil, sem qualquer qualificação artística ou crítica a não ser o fato de ser devoto contrito dos Novos Baianos e membro destacado da confraria do filósofo contemporâneo Roberto Pinho, tropeçou no próprio palavreado ininteligível na vã tentativa de explicar porque o Governo brasileiro tem de bancar uma turnê do cantor e compositor Caetano Veloso pelas principais capitais tropicais.
O senhor ministro de plantão disse simplesmente que "Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação para irmã Dulce ou para Madre Teresa de Calcutá."
O que é isso? Desde quando o Ministério da Cultura tem interesses comerciais na divulgação da arte nacional? O Brasil é um país pobre e, até segunda ordem, tem um governo popular interessado em promover a produção artística cultural sem PROTEGER artistas consagrados e muito bem sucedidos.
Caetano Veloso, em nome de sua própria história no cenário cultural nacional, devia retirar a solicitação de verba oficial. E um pedido de desculpas a Nação também não faria mal nenhum.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Traque matinal

Sol de outono, o noticiário otimista diz que vai dar praia, mas isso pouco interessa, há mais o que fazer nesta estação do Paraíso.
Pode-se esculpir frase a frase uma história que jamais existiu e sucumbir no empurra-empurra das culpas do dia-a-dia e navegar os versos del maestro até a ilha dos náufragos e colar a espalda ao paredón e reordenar os velhos e bons planos de explodir o palácio do governo. Ou então apenas voar.
Como um sabiá sob o céu da Bahia, sobre a serenidade burguesa dos condomínios à beira mar, sobre os palácios sem reboco da periferia, um sabiá flutuando na brisa sobre a Baía de Todos os Santos até entrar no Recôncavo e pousar num cajueiro de Santo Antonio de Jesus e decretar, com trinados e gorjeios veementes, para que todos ouçam e não esqueçam nunca, que CRIANÇA NÃO PODE FABRICAR FOGOS DE ARITIFÍCIO.
E aproveitar o ensejo para também relembrar que gente grande não deve votar em político demagogo.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Sem gaiola

Gostaria de aproveitar estes breve momentos de lucidez nesta manhâ ensolarada de uma quinta-feira que se diz feriado nacional para uma pequena obervação sobre a comoção de todos nós com o acidente do Airbus da Air France.
Acho que todos sentimos tão profundamente este tipo de acidente não apenas porque, logicamente, poderia ter sido com a gente mesmo, mas sim porque as pessoas com um mínimo de sensibilidade gostam muito de seus bichinhos de estimação.
E avião é o grande pássaro que nos leva a passear pelo céu.
Avião é um bicho vivo, isto sim.
E o que caiu no meio do mar era dos grandes, tinha 228 corações.

Vão mamar noutro lugar

Estou meio em banho-maria curtindo uma alergia de origem desconhecida, quer dizer, desconhecida para mim, os médicos devem saber do que se trata, mas sou meio burrão, só vou a médico se for com fratura exposta ou ferimento grave. Portanto, cá estou com o rosto inchado e embolotado, mas uma chamadinha da capa da Folha de hoje me traz à tona como se fosse um destroço de avião.
Diz a matéria da Folha que o Ministério da Cultura vetou um patrocínio de R$ 2 milhões para uma turnê nacional do cantor e compositor Caetano Veloso. O veto, dado as circunstâncias mercantilistas ideológicas do atual governo, surpreende a mídia e o mercado artístico porque os amigos do grupo político de plantão no Palácio do Planalto jamais mamaram tanto nas tetas da Nação. Mas a decisão do MinC é louvável, pois todo mundo sabe que Caetano tem dinheiro suficiente para produzir qualquer espetáculo em qualquer canto do planeta, não precisa de incentivos financeiros para ir até onde o povo está.
O que preocupa os observadores da tropicalíssima cena política nacional é o fato de que o Ministério, através do ministro Juca Ferreira, velho amigo dos veteranos baianos vanguardistas da música popular brasileira, vai acabar liberando a verba, como aconteceu com a cantora Maria Betânia, que levou R$ 1,8 milhão para percorrer as principais cidades brasileiras.
Espero que Caetano não inclua no repertório da turnê turbinada com grana oficial a genial composição de Riachão, Cada Macaco no Seu Galho. O povo pode achar que é deboche...

domingo, 7 de junho de 2009

Sentença senil

Não é que eu queira azedar o domingo de vocês, mas Millôr Fernandes, o gênio do Meyer, estragou o meu, então vou falar um pouquinho sobre isso.
A coluna que está no ar, via Uol, é uma peça mal acabada de um velho humorista preguiçoso.
A primeira frase-reflexão é perfeita (Uma vez que o privilégio é institucionalizado, vira religião).
A segunda frase (Não desespera irmão, com toda essa escuridão, tem sempre aurora em algum lugar) é um descarado arranjo floral para um velho –e conhecido- verso do poeta Otto Maria Carpeaux (A escuridão é tão intensa que a aurora não deve demorar).
O Internet Nota 10 é repetição de alguns meses atrás, com agravante de não citar o nome do fotógrafo (Charles Ebbts).
E o recado final é um insulto gratuito a todos os fumantes (Seja gentil com um fumante, ele vai morrer).
Todo mundo sabe que todos vamos morrer. Esta, na verdade, é a única certeza da humanidade –ninguém sai vivo dessa, lembram-se? Eu, por exemplo, acabo de acender um genuíno Hollywood, sei que vou morrer não demora muito, mas na certa será bem depois de Millôr.

sábado, 6 de junho de 2009

Aquarela eleitoral

As próximas pesquisas eleitorais devem dar musculatura à tese do terceiro mandato. A favorita do Planalto está esbarrando no tecnicismo científico do marketing político eleitoral. O suposto padecimento oncológico não extirpou outro tumor ainda mais letal, a rejeição.
A partir de agora, mais do que nunca neste País, os tortuosos caminhos legais para viabilizar o terceiro mandato devem convergir para o referendo popular e enfim conquistar ares de legitimidade. Isso foi o que Lula disse na cerimônia do Meio Ambiente. Só não ouviu quem não quis ou quem tem orelha só para pendurar óculos.

Gaiola de loucos

Voltei a ligar a televisão. Foi agora de manhã, e por um bom motivo, o treino das baratinhas. Estou com dificuldades para digerir o noticiário político e a cobertura jornalística da tragédia do vôo 447 da Air France.
É difícil ver Lula tentando explicar que vai concorrer ao terceiro mandato, sim senhor, se o povo brasileiro quiser.
É mais difícil ainda ver um índio loiro vestido de colete estampadinho falando como ministro de Estado –ou ao contrário.
E é praticamente impossível acreditar que o Ministro da Defesa, responsável pela interação entre Exército, Aeronáutica e Marinha, faça papel de palhaço diante de uma tragédia da aviação civil internacional.
No último bloco do treino da Fórmula-1 notei um comercial da Renault também absolutamente inacreditável. O locutor diz alto e bom som que “não interessa o que vai acontecer com seu orçamento familiar, o que interessa é que você já sabe qual o carro que vai comprar”.
Televisão, meu amigo, melhor não vê-la.

É mole?

A imaginação não tem a menor chance contra a realidade. Talvez por isso a literatura esteja arrastando a asa para os fatos históricos. Nunca neste mundo de Deus o “baseado na vida real” fez tanto sentido. Ou será que algum roteirista poderia imaginar que o Kung Fu morreria de tanto bater punheta num quarto de hotel?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Caixa preta

Problemas técnico-caseiros, de acordo com reforma pessoal da língua portuguesa, estão impedindo a devida atenção ao nada -ou a este blog.
Voltaremos quando reunirmos os destroços.