sábado, 5 de setembro de 2009
You say yes, i say no
Você diz alô, eu digo adeus
No momento em que o governo faz uma grande festa pelo pré-sal, a revista "Foreign Policy" publica um número sobre o longo adeus do petróleo. É tão grande o impacto festivo que um prefeito de Pernambuco perguntou: já posso contar este mês com o dinheiro do pré-sal? Ao governo interessa desinformar -para isso tem um grande aparato. Mas é fundamental nesse confronto fortalecer algumas teses. A primeira delas é de que o recurso do óleo deveria ser usado para nos libertarmos dele. Parece simples. No entanto, pesquisas indicam que um terço dos royalties são gastos por algumas cidades para aumentar a máquina administrativa. Isso quer dizer dar mais empregos e aumentar o poder dos grupos políticos locais. Fala-se em usar a Noruega como modelo econômico de exploração. Mas nada se fala no modelo de proteção ecológica de lá. O interessante é que o Estado não combinou com os russos, e o modelo talvez não seja atrativo para empresas. A Petrobras cuida de quase tudo, drenando imensos recursos que poderiam se voltar para a energia renovável. O importante é que houve uma grande festa. Alguns, como Sarney, saíram de sua pirâmide para celebrar; outros, como Dilma, de resguardo contra perguntas delicadas, reapareceram protegidos. Já havia legislação e toda uma história do petróleo no país. Mas a pressa em festejar parece maior que a de pesquisar e contabilizar os recursos para saber o que fazer com eles. A diferença entre Obama e Lula em energia está no ministro que escolheram. Lá é um Prêmio Nobel de Física; aqui é o Lobão, que prepara uma nova estatal, para a alegria de netos, filhos e amantes. Fazer um fogo e distribuir espelhinhos foi tática do poder desde a chegada dos portugueses. Caramuru.
Graus de dificuldades
Então soa a sonosplatia.
Um salão de eventos de Testemunhas de Jeová, a uns 500 metros de distância em linha reta da janela de onde estou, abre os trabalhos do dia por um alto-falante potente o suficiente para trazer algumas frases no lombo do vento e invadir os meus moucos ouvidos: e agora, em oferecimento do apóstolo Antonio Santos, da Congregação do Arraial, ouviremos o sermão 195 pápápá...
Por um instante, só por um instante, tive a impressão que os pássaros estavam me olhando à espera das palavras iluminadas. Só depois, bem depois, percebi que devia ser uma sutil manifestação de disfunção da lógica, ou do armário onde se guardam o bom senso e a desordem e o equilíbrio, tudo na mesma gaveta. Talvez seja dia de faxina.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Olha eu aqui
Ciro Gomes apresentou seu nome ao País como alternativa real a Presidência da República.
Aparentou calma, segurança, bom humor, algo além de uma moderna direção de arte no filmete, e passou claramente a idéia de que é a melhor continuidade possível do governo Lula.
A frase final, dizendo que o cafezinho estava gostoso, mostra que o cara-de-calango mais simpático do País está cheio de apetite.
Em nome de deus
Os auto-denominados apóstolo e bispa são aqueles mesmos presos nos Estados Unidos por contrabando e lavagem de dinheiro. Marcelo Crivela todo mundo sabe quem é.
Qual a necessidade política de Dilma se submeter a uma cena dessas, na saída do Planalto?
Talvez a ministra-candidata conquistasse mais votos pelo país afora se tivesse dado voz de prisão para estes criminosos exploradores do espírito religioso do povo brasileiro.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Cara e pinta de palhaço

Artistas do Grupoo Tholl, em foto de Nauro Júnior para a Zero Hora.
Os palhaços trocaram a alegria pela tristeza.
O grupo Tholl, o cirque de soleil da Princesa do Sul, é hoje um dos mais importantes grupos de dança do País, com espetáculos que encantam gerações, como dizem os amantes da arte circense. Eu estive em Pelotas no ano passado e assisti uma apresentação do Tholl no Theatro Guarany. Pareceu-me um trabalho de alta qualidade profissional, criatividade e desempenho a serviço da cultura. Meus companheiros de trabalho à época são testemunhas. Lá estávamos eu, gaúcho baiano, Zé Luís, da Fábrika Filmes, Mauro Assis, da Funyl de Brasília, Serginho Raposo, da África para o mundo, André Geniski, da Europa para Pelotas, e Amilton Coelho e Bruce, dupla de publicitários do tipo não-gosto-de-coisa-nenhuma. Gente com muita quilometragem por todas as BRs do planeta e que ficou gratificada com o show oferecido pelos artistas do Tholl em uma pequena cidade num canto distante do país, longe demais das capitais e de nossas próprias expectativas culturais para uma noite de sábado nas franjas geladas do pampa gaúcho.
Pois li agora no site da Zero Hora que o Tholl terá de deixar Pelotas. Não há um lugar adequado para o grupo se exercitar. A Universidade Federal de Pelotas e a Prefeitura Municipal não se entendem quanto à utilização de prédios públicos abandonados pela cidade e este mal-entendido administrativo está enxotando os artistas do Tholl de sua terra. Isto, claro, é uma estupidez. Uma infâmia de quem não tem compromisso cultural nenhum com sua terra nem muito menos com o desenvolvimento sócio-econômico de sua própria cidade.
Espero que desta vez o povo de Pelotas saiba o quê está perdendo.
Ou que pelo menos saiba que está perdendo. De novo.
Vox Poppuli
-Jornal Nacional aprova indicação de Lula para candidato a deus.
-Dilma não será Lara no remake de Doctor Jivago.
-Marina Silva tentará esverdear um país vermelho de esperança e preto de raiva.
-O acadêmico Collor de Melo vai, enfim, publicar seu primeiro livro, Eu Comi a Uva.
-Felipe Massa não voltará a correr na Fórmula 1, está na cara.
-O Grêmio chegará no G4, o Bahia não, e o Inter será campeão.
-García Márquez continuará a vivir para contarla.
-Saramago continuará contando para viver.
-Lula vai dar a Bahia e o Pará ao PMDB em troca do que ele já tem, os votos do povo.
-Vanuza vai cantar Boi da Cara Preta na convenção anual do MST.
-O bebê de Ivete Sangalo não será homem nem mulher, será apenas baiano.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Reflexos do baile
Lula lançou um blog –ou coisa parecida.
Saramago diz que vai voltar a escrever a sério –ou coisa parecida.
Lula não disse coisa parecida. Ele apenas acha que deus é brasileiro e chama-se Lula.
Saramago saca o revólver quando ouve falar em deus.
Lula saca o revólver quando ouve falar em oposição.
Eu não sou nem um nem outro, embora seja fisicamente parecido com o líder operário pelego e tente em todos os formatos escrever ao menos tecnicamente parecido com o mestre literário comunista, mas penso em parar de vez com este blogzinho desconectado do mercado e demasiado sobressaltado com a tal de realidade da vida.
Descobri hoje, na Folha, que os hipertensos, meu caso, são mais suscetíveis de ficar dementes na velhice. Ainda não sou velho, fumo, jogo bola, escrevo, observo pássaros, tomo café preto com leite e açúcar e adoro pão com goiabada, coisa de menino, mas ando muito desconfiado com a memória e o vernáculo. Além do mais, tenho de dar um jeito de ganhar a vida. A mesma vida que Saramago descreve tão bem e que Lula sapateia em cima como um tiranozinho de meia tijela.